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Prisão do Ai Pelo, “preservar a ruína e construir um museu local”

04 de Junho de 2012, 21:42

A caminho de Liquiça e mesmo junto ao mar, podemos encontrar a antiga Prisão do Ai Pelo, para onde os deportados políticos eram enviados na época do Estado Novo. A prisão esteve nas mãos de portugueses, japoneses e indonésios. Agora chegou a vez de conferir um lugar na história que lhe é merecido, em que timorenses e portugueses degredados ajudaram a dar forma ao país que é hoje Timor-Leste.


No passado dia 26 de Maio e no âmbito das comemorações do 10º Aniversário da Restauração da Independência de Timor-Leste e os 100 anos da Guerra de Manufahi, foi lançado o Projecto de Musealização da Antiga Prisão do Ai Pelo.

Durante a inauguração o
Secretário de Estado da Cultura, Virgilio Smith, fez-se acompanhar pelo Embaixador português Luis Barreira de Sousa, o Ministro da Educação, João Câncio, entre outras individualidades.

Este úlitmo, segundo o assessor da Secretaria de Estado da Cutura (SEC) Nuno Vasco, recorda uma estória que está intimamente ligada à antiga prisão.

“O Senhor Manuel Carrascalão (pai) e deportado político português, foi liberto por bom comportamento e foi mandado para Venilale. Consequentemente e nessa mesma localidade, foi-lhe permitido casar com uma pessoa local,” conta.

O orçamento disponibilizado à SEC serviu essencialmente para “coisas muito básicas, de modo a pôr o Projecto de Musealização da Antiga Prisão do Ai Pelo em funcionamento,” diz Nuno Vasco, numa entrevista concedida ao SAPO TL e que contou igualmente com a presença da Directora Geral da SEC Cecilia Assis.

Timor-Leste celebra 10 anos de Independência e da parte da Cultura houve a preocupação de se fazer algo, que não o típico “festa com grupo cultural, banda e fogo de artifício”.

“Preservar a ruína e construir um museu local”, foi esta a proposta apresentada. “Foi feito um trabalho em conjunto com os colegas da Direcção Nacional do Património Cultural [responsáveis máximos deste projecto] e havia umas ideias para o
Projecto de Musealização da Antiga Prisão do Ai Pelo, mas nada em concreto,” continua.

O orçamento da 1ª fase foi aprovado e até ao final do ano está previsto o lançamento de um livro sobre o património português em Timor, com o apoio do fotográfo Nelson Turquel. Numa fase adiantada estão ainda planeados a criação de um museu local, uma área de restauração assim como um parque infantil.

Para já, a segurança é essencial e “para a semana os guardas terão formação para melhor perceberem o seu funcionamento.”

Contexto histórico

A antiga Prisão do Ai Pelo é testemunha dos maus tratos sofridos por presos políticos e de delito comum, para ali enviados pela administração colonial portuguesa. Construída durante os finais do século XIX, a prisão esteve em funcionamento durante grande parte da primeira metade do século XX, até à sua desactivação, em 1939.

Neste mesmo ano julga-se que no seguimento das fortes chuvas que caíram sobre Díli e Liquiça e consequentes inundações e perda de vidas humanas e infraestruturas, a prisão do Ai Pelo tenha sido finalmente desactivada.

No entanto, parte dela sobreviveu às intempéries e tornou-se num dos postos de comando dos japoneses, durante a Segunda Guerra Mundial.

Com a ocupação indonésia, muitos edifícos de construção portuguesa, em desuso ou entretanto recuperados, foram alvo de medias de protecção e, em alguns casos, de conservação pela nova administração, sendo conhecida como “Bekas Penjara” (Ex-Prisão”, no original em língua indonésia).

Com a independência de Timor-Leste, foi aprovada em Conselho de Ministros a 14 de Setembro do ano passado uma Resolução do Governo relativa à Protecção do Património Cultural. O próximo passo, para além de um estudo histórico mais aprofundado, é a sua classificação como Monumento Nacional.


Alguns Presos Ilustres do Ai Pelo



Dom Félix Dmião Ribeiro, Liurai de Aileu


Dom Félix Damião Ribeiro, juntamente com o Liurai Mauluis e o Sacerdote tradicional Maubere, estiveram presos no Ai Pelo em 1925. Juntamente com outros liurais de Aileu, haviam-se revoltado contra as autoridades portuguesas.

Estiveram presos cerca de um ano, até 1926, quando o neto de Dom Félix os ajudou a fugir. Em 1931, Dom Félix é mandado prender por outros liurais e queimado vivo perto de Raimansu.

Segundo conta a história, terá gritado “vocês queimaram a própria família, mas eu não vou morrer,” e depois de morto continuava a surgir em vários lugares.

Dom Caetano, Liurai de Balibó

Dom Caetano, Liurai Fatuk Laran, de Balibó, foi mandado prender no Ai Pelo pelas autoridades portuguesas. Dele se dizia ser bruxo e ter sido responsável pela morte de muitas pessoas.

Manuel Viegas Carrascalão, político português deportado

Manuel Viegas Carrascalão (Pai) nasceu em Portugal em 1901. Tipógrafo de profissão, foi acusado pelo governo português de ser anarco-sindicalista e de conspirar contra as autoridades, sendo preso pela PIDE (Polícia Internacional e de Defesa do Estado) e torturado.

Deportado para Timor em 1925 – 1926, veio juntamente com outros opositores ao regime, entre os quais José Ramos Felipe, tio-avô de José Ramos-Horta. Preso no Ai Pelo durante dois anos, aí voltou a ser torturado. Libertado por bom comportamento, foi desterrado para Venilale, onde casou.

Como preso político, não podia trabalhar, tendo começado a ensinar a ler e a escrever português, e fazendo ainda pequenos trabalhos como carpinteiro e pedreirao.

Como revolucionário, nunca deixou de incutir nas pessoas à sua volta um sentimento anti-regime. Levado para trabalhar numa fazenda do Estado em Liquiça (antiga Granja Eduardo Marques, actual Fazenda Algarve), foi juntando dinheiro, tendo acabado proprietário dessa plantação.

Manu Hada, participante na Revolta de Manufahi (1912)

Convidado por D. Boaventura, participou na Revolta de Manufahi contra a administração portuguesa entre 1911/ 1912.

Natural de Liquiça, por essa altura deslocou-se a Manufahi, a convite de D. Boaventura, que lhe ofereceu uma arma de pederneira (“Kilat fatuk”, em tétum), com a qual fiou incumbido de regressar ao seu distrito e encorajar a população a revoltar-se.

Após o fracasso de Manufahi, Manu Hada andou escondido nas montanhas durante dois anos, altura em que foi preso.

Em 1924, é levado para o Ai Pelo por uma força de militares africanos afecta ao regime. Aí preso durante algumas semanas, foi vítima de maus tratos.

Conta-se que o obrigaram a lutar com a sua catana contra outro prisioneiro, dentro da vala que o mesmo cavara e que lhe haveria de servir de morada após ser decapitado.

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