Página gerada às 08:01h, domingo 19 de Novembro

Rui Araújo, o 'estafeta' que tratou a guerrilha e agora comandará o Governo de Timor-Leste

11 de Fevereiro de 2015, 10:46

O primeiro-ministro indigitado timorense, Rui Araújo, que em maio completará 51 anos, é um dos médicos mais conhecidos do país, com uma longa carreira que incluiu tratar guerrilheiros e ter sido estafeta de Xanana Gusmão para o exterior.

Considerado um homem dedicado à família e ao serviço público, íntegro e dedicado, Rui Araújo chega ao topo do executivo depois de uma ampla experiência ao longo de toda a jovem vida do Estado timorense - foi ministro da Saúde e assessor nos Ministérios da Saúde e das Finanças.

Mesmo que o facto de ser militante da Fretilin (Frente Revolucionária de Timor-Leste Independente) tenha causado algum mal-estar aos partidos da coligação do Governo, o seu nome nunca deixou de suscitar consenso, com apoiantes e adversários políticos a reconhecerem a sua dedicação, ética e qualidade de trabalho.

A sua indigitação como primeiro-ministro por um partido diferente ao seu confirma a tentativa de procura de consenso entre as várias forças políticas do país.

Natural do suco de Mape, na região de Zumalai, no distrito de Covalima, Rui Araujo nasceu a 21 de maio de 1964, tem dois filhos, é licenciado em Medicina pela universidade de Bali, com mestrado em Saúde Pública pela Universidade Otago, em Dunedin, na Nova Zelândia.

Completou a escolaridade primária em Suai e em 1974 veio para Dili onde estudou no Externato de São José, no bairro de Lahane.

É durante a sua vinda para Díli que Rui Araújo primeiro se interessa pela política, tornando-se militante da ASDT e, posteriormente, da Fretilin, influenciado na altura pelo catequista José de Ara
újo.

Termina o 7º liceu em 1985, em Díli, e consegue uma bolsa de estudo do Governo provincial indonésio para estudar literatura inglesa na Universidade Católica Satya Wacana, em Salatiga, Java Central.

Durante o período em que estudou na Indonésia amplia o seu trabalho na clandestinidade, enviando informação regular para a comunidade timorense na Austrália, nomeadamente em Darwin.

Em 1986 muda-se para a faculdade de medicina da Universidade Islaun Sultan Agung, em Semarang (Java Central), mantendo-se sempre ativo como "caixa" ou estafeta, levando informação entre Bali, Surabaya e Jakarta.

Três anos depois transfere-se para a faculdade de medicina da Universidade Udayana, em Bali, onde termina o curso de medicina geral 1994.

Rui Araújo assume-se, então, formalmente como membro da RENETIL (Resistência Nacional dos Estudantes de Timor-Leste), incluindo entre as suas atividades a redação e edição do boletim informativo Neon Metin.

Entre 1990 e 1992 Rui Araújo torna-se um dos elos de comunicação principais entre Xanana Gusmão, então no comando das Forças Armadas de Libertação e Independência de Timor-Leste (Falintil), e a rede externa, incluindo em Macau e em Portugal.

Fez parte da equipa que, em 1991, preparou a visita de receção à delegação parlamentar portuguesa, que nunca se chegou a realizar, apoiando ainda Kirsty Sword Gusmão, hoje mulher do primeiro-ministro, e o jornalista Max Stahl.

Entre 1994 e 1998 Rui Araújo exerce como médico de clínica geral no Hospital de Díli, tendo colaborado na altura com a organização Caritas em programas de combate à tuberculose.

Paralelamente ao seu trabalho mais público, Rui Araújo dedica parte do seu tempo ao cuidado clandestino, apoiando no tratamento a elementos da guerrilha incluindo, em abril de 1996, ao então chefe de Estado Maior das Falintil, o comandante David Alex Daitula.

Atividade que, em fevereiro de 1998, lhe vale uma carta anónima, de denúncia, apresentada ao então governador de Timor-Leste, Abílio Osório Soares.

Nesse ano, em setembro, Rui Araújo é um dos colaboradores que apoia o então administrador apostólico de Díli, Ximenes Belo, na organização da ronda de diálogo conhecida como Dare I.

Um mês depois obtém uma bolsa de estudo do Governo neozelandês - o seu filho também acabaria por estudar naquele país - para completar um mestrado em Saúde Pública na Universidade Otago, em Dunedin.

Depois do referendo, em 1999, Rui Araújo volta ao seu trabalho em Timor-Leste, integrado na Autoridade Interina de Saúde, o embrião do futuro Ministério de Saúde, então pertencente à Administração Transitória das Nações Unidas (UNTAET).

A sua tese de mestrado - "Um sistema de saúde adequado para Timor-Leste pela perspetiva dos timorenses" - é aceite em junho de 2001, sendo recrutado no mês seguinte como Diretor dos Serviços de Saúde da UNTAET.

Finalmente, a 2 de maio de 2002 inicia funções como ministro da Saúde no 1.º Governo Constitucional, cargo que mantém depois da reestruturação levada a cabo a 26 de julho de 2005, terminando o cargo em agosto de 2007.

Nos dois anos seguintes mantém-se como assessor de política e gestão de saúde no mesmo Ministério ocupando entre agosto de 2009 e o presente o cargo de assessor de gestão e política pública no Ministério das Finanças.

Simpatizante da Fretilin desde 1975 registou-se oficialmente como militante a 9 de dezembro de 2010, com o número 0177/DL/102551/003920.

Em 2011 funda a organização Profissionais de Saúde Militante Fretilin (PSMF) e a 11 de setembro desse ano é eleito como membro do Comité Central do partido, a que ainda pertence.

Participa na Conferência Nacional da Fretilin, em abril de 2014, durante a qual é aprovada uma resolução que permite a entrada de elementos do partido, se convidados de forma individual, no Governo nacional.

@Lusa

Comentários

Critério de publicação de comentários