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O Arquivo Nacional tem um dos maiores patrimónios portugueses em Timor-Leste

26 de Novembro de 2015, 15:46

Um dos maiores patrimónios da presença portuguesa em Timor-Leste está em mais de 750 metros lineares de estantes no primeiro andar do edifício do Arquivo Nacional, em Díli, onde se conserva o que sobreviveu da documentação da administração colonial.

Foto: CPLP multimédia

Sobreviveu durante os 27 anos de ocupação indonésia 'escondido' no sótão do Palácio do Governo em Díli, recebeu um primeiro tratamento do historiador José Matoso e tornou-se depois o coração do arquivo criado em 2000.

Quinze anos depois, os maiores segredos que contém continuam por revelar, com o Arquivo Nacional a debater-se com falta de meios técnicos e recursos financeiros e humanos especializados para tratar documentos, alguns dos quais datam do século 18.

"Isto é uma riqueza de Timor-Leste e pode servir para todos conhecerem a nossa história. Os documentos nunca foram queimados no tempo indonésio. Foram sempre guardados porque eram a nossa história", disse à Lusa Horácio Marques, diretor da instituição.

Isto sem falar nos milhares de caixas de arquivo da administração ocupante indonésia, da documentação deixada pela administração transitória da ONU e da que, desde a independência, o Arquivo Nacional foi recolhendo dos sucessivos governos timorenses.

Inicialmente, pensava-se que grande parte dos documentos da administração portuguesa estaria copiada nos arquivos em Portugal mas as primeiras análises sugerem que isso só ocorre no caso de material impresso, como os Diários de Timor ou outros livros.

A maior parte dos textos, porém, só existem neste arquivo, sendo por isso de importância crucial para uma análise histórica cuidadosa, o que exige melhores condições.

O arquivo tem tido algum apoio da cooperação brasileira e da cooperação australiana mas muito aquém das necessidades mais básicas, com o projeto a sobreviver e a crescer, em grande parte, pelo 'amor à camisola' e dedicação dos funcionários.

Nos edifícios do arquivo, no bairro de Caicoli, em Díli, essa dedicação vê-se no quase carinho com que tratam e mostram os documentos, reconhecendo as suas limitações técnicas e repetindo os pedidos de ajuda, especialmente a Portugal, essencial para este projeto.

O Governo prevê um edifício novo, com melhores condições, mas, como reconhece Horácio Marques, falta formação e o apoio de especialistas.

"Precisamos de apoio para ajudar a tratar o Arquivo Nacional. Em 2016 deveremos ter assessores especializados. Por isso pedimos ao Governo que consiga esse apoio, especialmente de Portugal", disse, referindo que já houve contactos preliminares com a Torre do Tombo.

A importância prática que esta documentação pode ter é evidente mesmo sem mergulhar nos pormenores documentais, como mostra um dos guias da reportagem da Lusa, Domingos da Costa, diretor de Informação e Divulgação.

Os registos, nas várias facetas da administração colonial, foram feitos com um pormenor, uma regularidade e uma precisão que "permitem um retrato do país" essencial para quem hoje o queira governar ou fazer crescer

Por tratar, por exemplo, estão as centenas de mapas e outros registos cartográficos sobre Timor ou mesmo os rigorosos estudos do 'fomento' que documentam vários projetos de desenvolvimento planeados para o território e as dificuldades da sua implementação.

Um exemplo já a ser posto em prática tem a ver com o detalhado serviço de meteorologia que a administração colonial mantinha, mercê de várias estações meteorológicas em vários pontos do território.

Regularmente, de forma metódica, a administração recolheu e registou dados alargados do clima timorense, desde chuva a vento, horas de sol, temperatura ou pressão atmosférica.

Uma equipa do arquivo está agora a digitalizar os dados, inscrevendo-os numa base de dados que, pelo menos até agora, não há certezas de que ficará em Timor-Leste, já que é 'controlada' pela cooperação australiana, que vai usar a informação para estudos seus sobre alterações climáticas.

Numa sala ao lado está a equipa de conservação dos documentos, treinada para ajudar a preservar a documentação, como explica Orlando do Carmo, o responsável do laboratório.

"Faltam-nos especialistas e meios técnicos. Não temos muita experiência e condições", disse.

Os responsáveis do Arquivo Nacional esperam mais sensibilidade para estas carências, pedindo para a instituição um orçamento mais adequado em 2016.

@Lusa

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