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Timor-Leste/20 anos: Destruição de estruturas locais foi o grande erro indonésio

15 de Abril de 2019, 19:15

A ativista indonésia Yenni Wahid considerou hoje que a destruição das estruturas locais foi, a par das atrocidades, o maior erro da gestão de Suharto em Timor-Leste.


Em entrevista à Lusa, a filha do ex-Presidente Wahid que acompanhou como jornalista o referendo de 1999, criticou o modelo de gestão do regime de Suharto em Timor-Leste, destruindo o modelo tradicional existente.

“Um dos maiores erros da Nova Ordem em Timor foi destruir a estrutura social do povo timorense. E transplantar um sistema usado em Java e noutras aldeias da indonésia, sobrepondo-o à sociedade em Timor-Leste”, explicou Yenni Wahid.

“As comunidades timorenses tinham os seus líderes tradicionais e locais, e a Indonésia substituiu-os com administradores de Java que não entendiam a língua, a cultura”, referiu.

O país foi alvo de sucessivos abusos, que se tornaram “o grande fogo que cimentou tudo”, mas a insatisfação da população era muito mais ampla, era “sobre uma mudança de estilo de vida”, afirmou.

Ex-jornalista, ativista e política, Yenny Wahid, que cumpre em outubro 45 anos, é hoje uma das vozes do islão indonésio moderado, liderando o Wahid Institute, organismo com projetos em áreas como a democracia, a paz e o bem-estar social.

Antes de uma vida na política – liderou a comunicação do Governo do pai e está envolvida na campanha de reeleição de Joko Widodo para a Presidência indonésia -, Yenny Wahid conheceu o outro lado, como jornalista do grupo australiano Fairfax Media.

Em 1999 fez parte da equipa que venceu o prémio mais prestigiado do jornalismo australiano, os Walkleys, pela sua cobertura de Timor-Leste.

Observadores da Indonésia dizem que a cobertura que Yenny fez da situação em Timor-Leste e, mais do que isso, as conversas em casa, mudaram a forma de pensar do pai que, como a maioria dos indonésios, não conhecia em detalhe o que ocorria no território.

O impacto foi tão grande que Wahid – sucessor de Habibie como chefe de Estado - decidiu realizar uma visita de Estado a Díli, a 29 de fevereiro de 2000, durante a qual depositou uma coroa de flores em Santa Cruz e depois, ao lado de Xanana Gusmão, em frente ao Palácio do Governo em Díli, pediu desculpa aos timorenses.

“Peço desculpa aos presentes por tudo aquilo que foi feito no passado, às vítimas de Santa Cruz e às suas famílias. Elas foram vítimas do que aconteceu no passado. Espero que tal não volte a repetir-se”, disse.

Yenny Wahid explica que mais do que a questão de Timor-Leste, a ação da Nova Ordem de Suharto – que perseguiu e a ameaçou a família – acrescentou um componente pessoal, alimentando a vontade de dar a conhecer uma realidade praticamente desconhecida na Indonésia.

“A maioria dos indonésios não tinha a mínima ideia sobre o que estava a acontecer em Timor-Leste, como não tinham a mínima ideia do que estava a acontecer em Aceh, na Papua ou noutras zonas da Indonésia”, refere.

Antes da reforma ocorrer, relembra, “a maior parte dos assuntos eram escondidos. Os media só divulgavam o que era sancionado pelo Governo e até o parlamento em vez de ser a voz das aspirações das pessoas era apenas um carimbo da Nova Ordem”, a ideologia do regime.

Mesmo os que tinham ouvido falar alguma coisa não entendiam verdadeiramente o que estava em causa, sublinha, afirmando que se tratava apenas de “um pequeno grupo de rebeldes ingratos que tinham recebido ajuda do Governo e não reconheciam”.

Poder ter estado em Timor-Leste como jornalista, falar diretamente com os timorenses, permitiu “ter uma nova perspetiva, perceber melhor o que está a acontecer”, perceber que havia muitas variáveis no assunto.

“Quando se investiga mais o assunto, percebemos que não se trata apenas de atrocidades. Que as atrocidades não foram feitas apenas pelos militares indonésios, mas também foram cometidas por timorenses contra os outros timorenses”, notou.

Lusa

 


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