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O jornalista que desafiou Suharto teme o maior conservadorismo na Indonésia

06 de Maio de 2019, 19:27

A Indonésia tem hoje uma imprensa livre, mas em contrapartida vive um período de pressões de elementos religiosos que colocam crescentes limitações na liberdade cultural, considera um dos jornalistas que combateu a ditadura de Suharto.


“Hoje temos a media muito livre, não temos que ter as famosas licenças, o Governo não pode censurar ou usar a arma da licença”, explicou à Lusa Goenawan Mohamad, hoje escritor e pintor, mas outrora jornalista e fundador da revista Tempo – uma das primeiras que nos anos 90 do século passado desafiou a Nova Ordem de Suharto (no poder entre 1967 e 1998).

“Mas agora a questão de liberdade de expressão não é tanto sobre a liberdade de imprensa. É mais sobre expressões culturais, submetidas a pressões de elementos religiosos que não gostam de expressões livres em poesia, ficção ou filme”, conta.

A uns meses de cumprir 78 anos, Goenawan Mohamad mostra-se convicto nos ideais, ainda que mais longe do mundo do jornalismo, adaptados à nova Indonésia democrática.

Uma sociedade onde se evidencia um crescente conservadorismo religioso, “não apenas entre muçulmanos, mas entre cristãos, especialmente”.

“Certamente entre os muçulmanos está a aumentar. Não necessariamente a violência ou a intolerância, mas certamente em conservadorismo”, explicou.

Goenwan Mohamad diz que o crescente uso do 'hijab' pelas mulheres muçulmanas – é prevalente nas ruas da cosmopolita Jacarta, capital indonésia - mostra “uma perda de liberdade de expressão física”.

“O que é muito visível, por exemplo na forma como as pessoas se vestem, é um autocontrolo nas expressões físicas. Há 25 anos quase ninguém usava 'hijab'”, conta.

Num momento em que o debate entre o secularismo e o conservadorismo religioso marcaram o debate para as eleições de 17 de abril, Mohamad diz que a Indonésia precisa de dar mais um mandato a Joko Widodo, o atual chefe de Estado.

“Ele tem um papel importante a fazer no país. Vem dos mais pobres, entende e compreende melhor esses problemas. O Suharto também era de uma família pobre. Mas ele chegou ao poder pelo poder do exército e o Jokowi foi eleito”, enfatiza.

“Há muito a fazer. Cinco anos é pouco para este país, que é demasiado complexo e grande. Dez anos é melhor”, nota.

Os resultados eleitorais deverão ser divulgados até 22 de maio, mas Widodo já reclamou ter sido reeleito, com 54% dos votos, enquanto o seu adversário Prabowo Subianto disse ter obtido 62% dos votos nas eleições.

O antigo jornalista descreve um país onde a influência dos militares é menor e, por isso, se nota a inveja que mostram relativamente ao crescente papel da polícia, com mais recursos e um papel mais preponderante na luta contra o terrorismo, por exemplo.

Uma Indonésia que “não pode ser verdadeiramente capitalista porque muitos dos negócios continuam a ser controlados pelo Estado”, onde a corrupção prolifera, apesar de uma maior e mais empreendedora classe média.

Descreve jovens que “deviam aprender a história” do seu país, porque “agora que estão livres e até podem criticar o Presidente” lhes “custa imaginar que isso não era possível” ou não percebem “o que foi necessário para conseguir essa liberdade”.

Apesar de tudo mostra-se otimista, com vontade que a mudança seja feita “de forma normal e sem os combates ideológicos entre as secções da 'sharia' [direito islâmico] e as seculares”, para responder ao muito que falta fazer.

“O sistema educativo é muito mau, as disparidade sociais continuam muito acentuadas. A situação económica permanece instável”, explica.

Nos anos 90 do século passado foi um dos rostos da imprensa que lutava contra a Nova Ordem mundial. Agora diz que a luta é outra, contra o influxo de informação das redes sociais, com conteúdo “vendido como notícias”, mas que “depois não respeita as regras básicas do jornalismo” onde proliferam informações “falsas e irresponsáveis” que vão proliferando.

Talvez por isso, admite, se sinta satisfeito por enveredar pelo mundo da arte.

Com os óculos pendurados na testa – que deixa cair duas vezes na conversa – a voz frágil mas assertiva e um sorriso confiante e aberto, Goenawan Mohamad diz-se contente e “muito 'fit' [em forma]”, enquanto sobe os vários lanços das escadas de metal até ao seu estúdio.

A conversa decorre numa das salas do complexo conhecido como "Komunitas Salilhara", o primeiro centro privado multidisciplinar de arte da Indonésia que Goenawan Mohamad ajudou a fundar em 2008 e onde hoje tem o seu estúdio.

“Sou artista a tempo inteiro. Pinto, escrevo poesia, peças de teatro e contos. Fico por aqui”, disse, referindo-se ao complexo instalado num espaço de quase 4.000 metros quadrados, ao lado da Universidade Nacional Indonésia em Passar Minggu, sul de Jacarta.

Três edifícios principais – teatro, galeria e escritórios – com instalações adicionais incluindo um estúdio de ensaio, uma pousada e um anfiteatro.

O projeto foi formado por vários escritores, artistas, jornalistas e amantes da arte e desde a sua fundação promove projetos artísticos de vários tipos, tendo sido considerado em 2010 como “O Melhor Espaço de Arte” da capital indonésia.

O "Komunitas Salihara” afirma-se como “um centro cultural alternativo” empenhando em “manter a liberdade de pensamento e expressão, respeitar as diferenças e a diversidade e promover e disseminar recursos artísticos e intelectuais”.

“Precisamos de reafirmar essa visão, porque na Indonésia de hoje, onde a democracia eleitoral foi implementada nas últimas duas décadas, a liberdade de pensamento e expressão ainda é ameaçada de cima - por instrumentos do Estado - ou de lado - por setores da sociedade em si, especialmente grupos que atuam em nome de algum grupo religioso ou étnico”, refere.

Prioridade para as novas artes, mas também reconhecendo e promovendo “uma atitude criativa em relação à herança artística diversificada da Indonésia e do mundo”.

“Um dia temos que ter cá artistas portugueses”, diz.

Lusa


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