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Embaixador da Indonésia: Temos uma "amizade trilateral" com Portugal e Timor-Leste

13 de Maio de 2019, 22:37

Depois de 24 anos de relações cortadas, Portugal e a Indonésia são hoje "bons parceiros" e formam com Timor-Leste "uma amizade trilateral", defendeu, em entrevista à agência Lusa, o embaixador da Indonésia em Portugal.


Num ano em que se assinalam 20 anos sobre o retomar das relações diplomáticas entre Portugal e a Indonésia e da realização do referendo sobre a autodeterminação de Timor-Leste, Ibnu Wahyutomo assegura que não há hoje na relação entre os três países qualquer problema.

"Indonésios e timorenses, não temos qualquer problema uns com os outros. Temos uma amizade trilateral - Portugal, Indonésia e Timor-Leste - e onde e quando há uma destas partes do triângulo envolvida, os outros têm de se envolver. Somos bons parceiros", disse.

Ainda assim, admitiu que possa permanecer entre os mais jovens a ideia de que a Indonésia é o agressor relativamente a Timor-Leste.

"Nos jovens que não conhecem a História entre a Indonésia e Timor-Leste talvez continue a haver uma ideia da Indonésia como um agressor, mas aqueles que conhecem a História percebem e não há qualquer ressentimento sobre o passado", adiantou.

"Os nossos amigos timorenses ajudaram a explicar aos portugueses que agora somos vizinhos e, felizmente, bons vizinhos", acrescentou o diplomata.

Com Portugal, as relações diplomáticas "são boas", apesar de reconhecer que não "estão no seu pico".

"Houve muitas melhorias na comunicação e nas relações entre os dois países e os dois povos desde a reabertura das embaixadas em Lisboa e em Jacarta", considerou.

A visita à Indonésia do então Presidente Cavaco Silva, em 2012, e deslocação do chefe de Estado indonésio, Susilo Bambang Yudhoyono, a Portugal, em 2014, marcou o retomar das visitas de alto nível entre os dois países, interrompidas desde a década de 60, quando o então Presidente indonésio Sukarno visitou Portugal.

Ibnu Wahyutomo recordou que, na sequência dessas visitas, foram estabelecidos vários acordos e memorandos para melhorar as relações", manifestando a expetativa de que o Presidente Marcelo Rebelo de Sousa possa fazer uma viagem oficial à Indonésia "este ano ou no próximo".

Disse ainda esperar que o Presidente da Indonésia, Joko Widodo, que concorre a 27 de maio a um segundo mandato, possa depois retribuir a visita.

Marcelo Rebelo de Sousa e Joko Widodo "são muito parecidos, populares, próximos da população, visionários”. “Têm muito em comum e acredito que se darão muito bem", acrescentou.

Ibnu Wahyutomo, que assumiu como missão dar a conhecer a Indonésia aos portugueses para além de Bali, tem apostado muito na realização de intercâmbios culturais entre artistas dos dois países e assegura que os resultados já se começam a sentir.

"Quando apresentei as minhas credenciais ao Presidente Marcelo Rebelo de Sousa, disse-lhe: queremos que os portugueses conheçam a Indonésia não apenas por Bali e que os indonésios conheçam Portugal além do Cristiano Ronaldo", disse.

O embaixador apontou que "o número de turistas portugueses que vão para a Indonésia está a aumentar de ano para ano", indicando que passou de pouco mais de 18 mil em 2013 para quase 37 mil em 2018.

Por outro lado, adiantou o embaixador, a captação do interesse português também não tem sido fácil porque, segundo disse, "os empresários portugueses mantêm a ideia de que a Indonésia é muito longe".

Ainda assim, o investimento português está a crescer, atualmente com 21 projetos portugueses na Indonésia, sobretudo em hotéis e restaurantes.

O saldo da balança comercial entre os dois países é negativo para Portugal, com as importações portuguesas da Indonésia a atingirem os 138 milhões de euros em 2018 contra 14,2 milhões em exportações para aquele país asiático.

Em janeiro deste ano, a Indonésia era o 40.º fornecedor a Portugal e o 115.º cliente.

Calçado, têxteis, plásticos, borracha e produtos agrícolas são os principais produtos comprados por Portugal à Indonésia, para onde Portugal sobretudo maquinaria, químicos, pasta de papel e produtos alimentares.

"Portugal é importante para nós do ponto de vista económico porque é um mercado não tradicional, um mercado que tem grandes oportunidades e para o qual não se olha. Talvez por causa da sua posição na esquina da Europa. É um país que muitos indonésios nunca viram", disse.

Depois de 24 anos de relações cortadas devido à questão de Timor-Leste, Portugal abriu uma secção de interesses em Jacarta, em 1999, tendo simultaneamente sido aberta uma representação congénere indonésia em Portugal.

Apesar de ter uma representação diplomática em Jacarta desde as primeiras décadas do século 20, a primeira embaixadora portuguesa no país foi a atual eurodeputada Ana Gomes, que chefiou a secção de interesses aberta em 30 de janeiro de 1999 e reabriu a embaixada em 12 de julho de 2000.

O atual titular do cargo é Rui do Carmo desde novembro de 2016.

Os registos do Ministério dos Negócios Estrangeiros indicam que o primeiro representante português em Timor-Leste foi Vasco Vieira Garin, que esteve em missão especial até 1950, seguindo-se 10 representantes, entre encarregados de negócios, ministros plenipotenciários e até um cônsul geral, António Pinto da França.

Guilherme de Sousa Girão acabou por ser o último diplomata em Jacarta antes da interrupção que durou 24 anos, que começou quatro dias depois da invasão indonésia de Timor-Leste e duraria até 30 de janeiro de 1999, quando Ana Gomes abre a secção de interesse.

Lusa

 


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