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Polícia escolta ex-padre acusado de abuso sexual de crianças em enclave de Oecusse

02 de Dezembro de 2019, 22:22

Um ex-padre norte-americano acusado de abuso sexual de várias crianças no enclave de Oecusse está a viajar para Díli, sob forte escolta policial, confirmaram à Lusa fontes policiais.


Richard Daschbach está a viajar no navio Nakroma, que faz a ligação marítima entre o enclave de Oecusse e a capital, disseram à Lusa passageiros que viajam a bordo.

Arnaldo Araújo, comandante da Polícia Nacional de Timor-Leste (PNTL), disse à Lusa que Daschbach está apenas a ser escoltado pela polícia “de volta à sua casa” na localidade de Maliana, a sudoeste da capital.

“A polícia está apenas a acompanhar”, disse, rejeitando confirmar se Daschbach está ou não detido e remetendo para o Ministério Público informações adicionais sobre o caso.

O padre foi escoltado até à entrada no Nakroma numa caravana de quatro carros da polícia, em que se encontrava Arnaldo Araújo, tendo “entre 15 e 20 agentes” armados entrado a bordo para acompanhar o ex-padre.

O navio, que partiu de Pante Macassar, capital do enclave, às 15:00 locais é esperado ao final da madrugada de terça-feira, hora local.

Daschbach foi detido em abril para um primeiro interrogatório, meses depois da denúncia do caso, tendo-lhe sido ordenado que abandonasse o enclave e regressasse a sua casa em Maliana.

Acabou por voltar pelo menos duas vezes a Oecusse, tendo fontes da Autoridade Regional confirmado à Lusa que voltou agora a ser detido depois de tentar regressar ao local onde é acusado de ter cometido os crimes, ao longo de vários anos.

Vítimas dos abusos referiram já terem sido alvo de ameaças por denunciarem os abusos de Richard Daschbach, alegadamente cometidos durante vários anos a dezenas de crianças.

Daschbach, 82 anos, natural de Pittsburg, nos Estados Unidos, vive em Timor-Leste desde 1966 e, em 1992, estabeleceu duas casas de abrigo de crianças, a TopuHonis, em dois espaços no enclave de Oecusse.

O ex-padre acabou afastado de funções religiosas pela Congregação da Doutrina da Fé (CDF) no Vaticano depois de ter admitido os seus crimes à congregação Societas Verbi Divini (SVD ou Sociedade da Palavra Divina), tendo sido inicialmente retirado do enclave.

Hoje, a Fokupers informou que estará em Díli, entre 03 e 13 de dezembro o procurador-geral da SVD, Peter Dikos, para “promover a boa compreensão sobre as regras da Igreja Católica relativamente à proteção das crianças pela igreja”.

O caso chegou a conhecimento de responsáveis timorenses quase um ano antes, mas só foi tornado público pelo jornal Tempo Timor, em fevereiro.

Apesar de Daschbach ter admitido perante várias pessoas a autoria dos crimes, continuou a viver vários meses na pequena localidade do enclave de Oecusse, onde é acusado de ter cometido os abusos, aspeto que tinha suscitado várias críticas em Timor-Leste.

Uma organização timorense divulgou um depoimento de uma jovem que diz ter sido uma de várias crianças vítimas de abuso sexual por parte do ex-padre norte-americano.

O depoimento, divulgado pela organização Fokupers – que, entre outras atividades, apoia vítimas de abuso sexual - confirma a existência de várias vítimas de Richard Daschbach, que foi afastado do sacerdócio pelo Vaticano.

"Eu não sabia nada. E não perguntei nada. Fui com as outras. Naquela vez estávamos três meninas no quarto. E foi quando as coisas más aconteceram. E fiquei surpreendida que as meninas ficavam caladas. O pai nem precisava de nos ameaçar. Ficávamos caladas. Ninguém falava de nada", contou a jovem no depoimento divulgado.

A jovem explica que o então padre - a quem chama 'pai' - nunca dizia por palavras o que queria, mas sim por gestos, incluindo masturbação, sexo oral e toques, agarrando as meninas para mostrar o que queria que fizessem.

O depoimento confirma que os casos de abusos eram conhecidos na comunidade onde, apesar disso, o padre "era muito respeitado".

Lusa

 


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