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Homenageado português considerado herói da luta pela independência de Timor-Leste

07 de Dezembro de 2019, 00:31

Por António Sampaio

Heróis da luta pela libertação de Timor-Leste, incluindo o português Jorge Carapinha, que morreu na prisão, vítima de tortura pelas forças indonésias em 1981, são sepultados e homenageados sábado no Cemitério dos Heróis em Metinaro.


Os 57 homens e mulheres que serão homenageados morreram em vários pontos de Timor-Leste no período entre 1975 e 1995, segundo uma lista à qual a Lusa teve acesso.

Do grupo faz parte Jorge Carapinha, um ex-membro do Comité Central da Fretilin (CCF) que morreu na prisão em Díli depois de um longo período de detenção e tortura às mãos dos ocupantes indonésios.

Rui Carapinha - um dos dois filhos do ex-dirigente da Fretilin que viajou para Díli para certificar os dados do pai e testemunhar a cerimónia de “sepultamento coletivo” – reuniu-se hoje com o secretário-geral daquele partido, Mari Alkatiri.

“Penso que é importante esta homenagem porque ele deu a vida por esta terra, fez desta terra a terra dele”, disse Rui Caparinha à Lusa. “Foi um bom pai, um bom professor. Ele estava do lado certo da questão e a minha mãe sempre o apoiou”, afirmou.

Mari Alkatiri não tem dúvidas: Carapinha “assumiu-se como timorense, lutou num país que adotou como seu e morreu por esse país” e, por isso, deve ser homenageado e condecorado como herói nacional.

Colegas de serviço, Carapinha desenhador e Alkatiri topógrafo, começaram a falar de política “mesmo antes do 25 de Abril”, com o luso-timorense a manifestar desde logo ser “um homem com “tendências claras progressistas e de esquerda”, recordou.

“No momento da ação militar da UDT, ele vivia aqui e assumiu logo a sua posição clara de lutar ao lado da Fretilin. Os filhos sofreram, a família sofreu e só foram para Portugal em 1984”, disse, recordando-o como um caso único de um português no CCF.

E mesmo que a lei possa ter definições sobre atribuição de algumas condecorações exclusivamente a cidadãos timorenses, Alkatiri sublinha que essa questão é de menor importância, num caso como o de Carapinha.

“Na altura, a nossa posição era de que quem se assumia timorense, era timorense. Os restos mortais vãos ser sepultados no jardim dos heróis, ele foi membro da CCF da Fretilin que foi fundadora desta nação e por isso não há dúvidas”, explicou.

“Se foi uma pessoa que deu a sua vida, assumiu-se como timorense, morreu como timorense deve ser homenageado. Quem fez este tipo de militância deveria ser considerado cidadão originário”, afirmou.

Conhecido pelo nome de código Mau-Lelo, Carapinha nasceu a 13 de setembro de 1925, morreu a 03 de novembro de 1981 na Comarca de Balide e está registado na Base de Dados dos Combatentes da Libertação Nacional de Timor-Leste.

Detido durante cinco anos e onze meses pelas tropas indonésias, acabou por morrer vítima da tortura, sendo considerado um dos heróis nacionais da luta pela independência.

Destacado em Timor-Leste desde 1950, Jorge Tomás Godinho Carapinha foi funcionário dos Correios, Telégrafos e Telefones e, depois, como desenhador e engenheiro, funcionário das Obras Públicas.

Na década de 70 começou a lecionar na Escola Técnica Pró. Silva Cunha, génese do que é hoje a universidade nacional, chegando ao cargo de diretor em 1974, ano em que se juntou às fileiras da Frente Revolucionária do Timor-Leste Independente (Fretilin) como membro do Comité Central, onde ocupou o cargo de vice-secretário.

A 11 de agosto de 1975, após o golpe da União Democrática Timorense (UDT), Carapinha refugia-se no distrito de Aileu com a família e outros líderes da Fretilin, incluindo Nicolau Lobato, Mari Alkatiri.

Fica na região até 20 de agosto, quando a Fretilin inicia o contra-golpe, participando a 28 de novembro na cerimónia, no Palácio do Governo, onde foi proclamada a independência.

A 07 de dezembro de 1975, dia da invasão de Díli por militares indonésios, Carapinha foi preso e torturado, chegando a ser ameaçado com fuzilamento no cais do porto do Díli.

Acabou por ser levado para a prisão no edifício Tropical, hoje o Hotel Plaza, e posteriormente para a Comarca de Balide, tendo sido sujeito a intensos interrogatórios tanto ali como no edifício de Sang Thai Hoo, na zona comercial de Colmera.

Carapinha faleceu em 1981 e foi sepultado no cemitério de Santa Cruz, tendo a sua família sido retirada para Portugal.

Roque Rodrigues, amigo de Carapinha, na altura também no CCF e atualmente assessor na Presidência da República timorense também recorda o pedagogo, o professor que “veio dar aulas a Timor, apaixonou-se por Timor e fez de Timor a sua pátria”.

“As funções de membro do CCF não são dadas a estrangeiros, são dadas a nacionais. Quando Jorge Carapinha se torna membro do CCF, é tido e identificado como alguém que se fez timorense”, disse.

“Timorense não é apenas aquele que nasce aqui. Temos que pensar o que é a nacionalidade, a identidade. É possível ser uma coisa e outra”, afirmou.

Rodrigues diz que Carapinha “veio de fora, aprendeu a amar" o país "e, num momento difícil, escolheu estar ao lado dos timorenses”, ajudando a “formar consciências nos estudantes que eram seus alunos”.

“Acabou por identificar-se com o ideário da organização política que se bateu pela independência. E, quando podia ter saído de Timor-Leste, não quis, foi preso, torturado e morreu. Pela sua opção pagou um preço”, afirmou.

“Não é estrangeiro. Quando oferece a sua vida por Timor então é ainda mais complicado falar dele como estrangeiro. Ele é um irmão nosso. A vida dele constitui motivo de reflexão, pensamento e estudo. Tem todo o direito a ser enterrado no cemitério onde estão os timorenses ilustres que dedicaram a sua vida a esta causa”, defendeu.

Para Roque Rodrigues, Carapinha é um “operário da origem, um operário que estava a construir o país, um forjador que merece admiração”.

Lusa

 


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