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CPLP perdeu liderança para a CEDEAO no processo de estabilização - investigadora

28 de Abril de 2012, 01:42

Lisboa, 27 abr (Lusa) - A investigadora portuguesa Elisabete Azevedo-Harman considerou hoje que o bloco lusófono foi ultrapassado pela comunidade de países da África Ocidental na liderança do processo de estabilização da Guiné-Bissau, restando-lhe agora integrar-se nas decisões tomadas.

A Comunidade Económica de Países da África Ocidental (CEDEAO) aprovou quinta-feira o envio de um contingente entre 500 a 600 militares para a Guiné-Bissau, onde desde 12 de abril um grupo de militares detém o poder e mantém presos o Presidente interino, Raimundo Pereira, e o primeiro-ministro e candidato presidencial, Carlos Gomes Júnior.

Foi ainda dado um ultimato de 72 horas aos militares golpistas para acatarem as exigências da organização.

"A CPLP tem um papel um bocadinho ingrato neste momento e tudo o que vier fazer já é posterior ao que a CEDEAO fizer e tem que se integrar naquilo que a CEDEAO anunciou. A CEDEAO ganhou em termos de tempo e a CPLP tudo o que vier a fazer tem que ser em consonância com a CEDEAO", disse à agência Lusa Elisabete Azevedo-Harman, recém-regressada da Guiné-Bissau.

A professora de ciência política da Universidade Católica, que estava em Bissau a desenvolver um trabalho de investigação sobre a democratização do país, considera que a CEDEAO se antecipou ao bloco lusófono e assumiu a liderança na procura de soluções para a crise política na Guiné-Bissau, sublinhando a ausência de Portugal e de Angola na força militar.

"A CEDEAO tomou as rédeas neste momento [...]e isso é do agrado dos militares", disse a investigadora, admitindo que os militares revoltosos têm reservas relativamente a Angola, por causa da missão militar que tem no terreno [MISSANG], e a Portugal devido à sua posição de solidariedade com os angolanos.

"Há uma situação um bocadinho ambígua: temos a CPLP a tentar liderar o processo com discursos de Portugal e Angola no Conselho de Segurança [das Nações Unidas], mas temos a CEDEAO a antecipar-se a qualquer decisão e, possivelmente até, a recusar cooperação com a CPLP", acrescentou a investigadora.

Considerou que a CEDEAO podia assumir, na declaração final da cimeira extraordinária sobre a situação na Guiné-Bissau, que o plano para a estabilização do país era feito em conjunto com a CPLP e que, uma vez que já há tropas angolanas no terreno, combinar com elas a operação, mas não o fez.

Elisabete Azevedo-Harman acredita que a CEDEAO tem um "ponte facilitada" com os militares e que se eles cederem às exigências da organização será possível construir uma ponte com o PAIGC, partido que detinha o poder na Guiné-Bissau e que os golpistas querem excluir de uma solução futura.

"O papel da CPLP nesta equação é uma incógnita", disse.

A investigadora considerou que a CEDEAO, a CPLP e o Conselho de Segurança da ONU são "variáveis externas com muita importância", mas sublinhou que "o problema dentro da Guiné-Bissau" é não poder haver uma solução só com os militares ou só com o PAIGC.

"Fazer esta equação é que é muito difícil neste momento porque há um braço-de-ferro nítido entre o PAIGC - que estava no poder e tinha legitimidade eleitoral e os militares que têm a legitimidade histórica da criação do país e que são uma força também política na Guiné-Bissau. A ponte entre estes dois é que vai ser complicada de gerir[...] com uns a tomar partido exterior com uma força e outros a serem mais apoiados por outra força internacional", adiantou.

A investigadora diz que foi do cruzamento da insatisfação dos militares relativamente à presença angolana no país conjugada com o período eleitoral que se vivia na Guiné-Bissau, que preparava a segunda volta das eleições presidenciais, que resultou a tomada do poder pelas forças armadas, adiantando que só a resolução dos problemas dos militares poderá trazer estabilidade ao país.

"Uma das componentes essenciais é a reforma das forças armadas. Já houve várias tentativas, mas nunca houve uma reforma a sério. As forças armadas herdam problemas da guerra de libertação, da guerra de 1998 e enquanto as forças armadas não estiverem satisfeitas com o seu posicionamento na sociedade e com as suas condições de vida não vai haver possibilidade de uma democratização", disse.

CFF

Lusa/Fim


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