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"Apetite voraz" da China poderá fazer desaparecer madeira nobre de Moçambique - associação

29 de Novembro de 2012, 22:20

Pequim, 29 nov (Lusa) - O "apetite voraz" da China por madeira, combinado com a corrupção e a fraca aplicação das leis em Moçambique, poderá levar o país lusófono a perder toda a sua madeira nobre em cinco anos, alerta um relatório hoje divulgado.

Intitulado "Apetite por destruição: O comércio chinês de madeira ilegal", o relatório, lançado em Pequim pela Agência de Investigação Ambiental (AIA), acusa a China de ser atualmente o maior consumidor de madeira ilegal, importando madeira roubada por organizações criminosas em grande escala.

Embora os últimos dez anos tenham registado um enorme progresso na proteção das florestas em todo o mundo contra a exploração madeireira ilegal - com os EUA, a UE e a Austrália a proibirem a entrada de madeira ilegal nos seus mercados - a China está a minar esses avanços, alerta a organização sediada em Londres.

Enquanto toma medidas vigorosas para proteger e replantar as suas próprias florestas, a China apoia uma vasta e voraz indústria de processamento de madeira que se baseia sobretudo na importação da matéria-prima.

"A China está hoje a exportar a desflorestação em todo o mundo", avisou Faith Doherty, chefe da campanha florestal da AIA.

"Qualquer progresso na salvaguarda das florestas do mundo está a ser minado, a menos que o Governo chinês atue rapidamente e decididamente para reforçar a aplicação da legislação e assegurar que a madeira ilegal é proibida de entrar nos seus mercados", acrescentou.

Investigadores da AIA estiveram no terreno a averiguar os fluxos de madeira ilegal na China, Indonésia, Laos, Madagáscar, Moçambique, Birmânia, no Leste da Rússia e no Vietname.

Segundo o relatório agora divulgado, Moçambique ilustra claramente a falência crónica da gestão florestal quando a procura insaciável de madeira por parte da China converge com a fraca aplicação das leis e a corrupção no país.

As florestas tropicais moçambicanas, de crescimento lento, contêm madeiras valiosas e cobrem 41 milhões de hectares de terreno.

A madeira moçambicana - nomeadamente pau-ferro, mondzo, pau-preto, chanate, jambire e umbila - é muito procurada no mercado chinês e utilizada na reprodução de móveis antigos e na produção de soalhos, sobretudo para o mercado doméstico.

A importância da China nas exportações de madeira moçambicana começou a crescer no final dos anos 1990 e em 2001 a China já era o maior importador de produtos florestais do país.

Entre 2000 e 2005, a China recebeu 85% das exportações de madeira de Moçambique e o valor destas exportações, que em 2001 era de oito milhões de dólares, alcançou 100 milhões em 2010.

Embora Moçambique tenha legislação florestal que visa promover a exploração sustentável da floresta e evitar a exportação de troncos para promover o desenvolvimento da indústria interna de processamento de madeiras, "as leis são rotineiramente ignoradas e os abates ilegais são a ordem do dia", escreve a AIA.

"A sobre-exploração dos recursos florestais é a norma e o contrabando de troncos para a China uma realidade", acrescenta.

O relatório exemplifica que, enquanto as estatísticas alfandegárias chinesas referem a importação de 230.000 metros cúbicos de madeira de Moçambique em 2011, os registos moçambicanos referem apenas a exportação de 36.000 metros cúbicos de madeira para a China.

A AIA estima que pelo menos 50% da madeira de Moçambique seja abatida ilegalmente e admite que "a valiosa madeira nobre desapareça do país em cinco anos".

FPA // VM.

Lusa/Fim


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