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Reavaliação do "4 de Junho" continua fora da agenda política

02 de Junho de 2014, 17:44

Pequim, 02 jun (Lusa) - Em abril de 1976, no dia chinês dos finados, milhares de pessoas acorreram à Praça Tiananmen para homenagear o recém-falecido primeiro-ministro Zhou Enlai, numa manifestação de luto não autorizada pelos radicais que estavam então no poder.

Foi o primeiro protesto do género em quase três décadas de governação comunista e seria logo considerado "um incidente contrarrevolucionário": o primeiro dos vice-primeiros-ministros, Deng Xiaoping, apontado como "instigador dos distúrbios", foi afastado de todos os cargos que ocupava.

Embora já muito doente, Mao Zedong, nascido em 1893, continuava na presidência do Partido Comunista Chinês e a influência do chamado "Bando dos Quatro", grupo radical que incluía a mulher de Mao, Jiang Qing, era proeminente.

Em outubro de 1976, um mês após a morte de Mao, o "Bando dos Quatro" foi preso e Jiang Qing seria mais tarde condenada à morte, pena posteriormente comutada em prisão perpétua, e acabou por suicidar-se.

Deng Xiaoping, futuro "arquiteto-chefe" das reformas que transformariam a China na segunda economia mundial, foi reabilitado no ano seguinte.

Em novembro de 1978, semanas antes do PCC adotar a política de "Reforma Económica e Abertura ao exterior", o "incidente" de 1976 na Praça Tiananmen passou a ser uma "manifestação patriótica".

A revisão da Historia e a reavaliação do papel dos seus protagonistas são frequentes na China.

Em 1982, a Grande Revolução Cultural Proletária, a ultima campanha lançada por Mao, na década de 1960, foi oficialmente qualificada como "o maior erro da história do socialismo" na China.

O desempenho de Mao também foi reexaminado: ele esteve "70% certo e 30% errado", concluíram os seus sucessores.

Não é um juízo lisonjeiro para um líder que foi idolatrada em vida como "o sol mais vermelho da terra", mas o seu retrato continua afixado na Porta da Paz Tiananmen, no centro de Pequim, e o corpo, embalsamado, está exposto num mausoléu construído na imensa praça em frente.

A reavaliação do veredito oficial acerca do movimento pró-democracia da Praça Tiananmen, em 1989 - "rebelião contra -revolucionária" - é insistentemente reivindicada pelos familiares das vítimas e ativistas dos direitos humanos.

Há dois anos, um dos líderes mais associados à repressão do movimento, o então presidente da câmara de Pequim, Chen Xitong, pediu o "exame" daquela "lamentável tragédia".

Centenas de pessoas morreram e milhares de outras foram presas ou exilaram-se.

"Muitas coisas ainda não são claras, mas acredito que um dia a verdade virá ao de cima. Temos de analisar porque ocorreu uma tragédia destas. Foi provocada pela luta interna no topo (do poder)", declarou Chen Xitong num livro de entrevistas publicado em Hong Kong.

Uma nova geração, encabeçada pelo atual presidente Xi Jinping, assumiu a liderança do PCC em novembro de 2012 e num gesto muito aplaudido pelas empresas e embaixadas ocidentais, reconheceu "o papel decisivo do mercado" para "aprofundar as reformas".

Xi Jinping, 61 anos, já foi descrito como um líder transformacional", idêntico a Mao e Deng, mas, por ora, não se mostra interessado em reexaminar os acontecimentos de há 35 anos.

"A perspetiva de qualquer reavaliação do veredito sobre Tiananmen parece hoje mais distante do que nunca", disse a agência Lusa a jornalista Louisa Lim, autora do livro "The People's Republico of Amnésia", publicado há um mês.

A posição de Xi Jinping "ficou clara quando ele anunciou que não iria repudiar o Presidente Mao", realçou Louise Lim acerca da homenagem prestada ao fundador da Republica Popular da China no 120.º aniversário do seu nascimento, em dezembro passado.

"Foi um sinal para todos de que não haverá reavaliações históricas, mesmo em relação a episódios que ocorreram nas décadas de 1950 e 1960, quanto mais à história mais recente", concluiu a investigadora.

AC // PJA

Lusa/Fim


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