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ONG em busca de fundos e louros prejudicam reconstrução - fundação

23 de Dezembro de 2014, 16:05

Banda Aceh, Indonésia, 26 dez (Lusa) -- Organizações não-governamentais (ONG) motivadas em receber fundos e louros prejudicaram a reconstrução de Aceh após o tsunami de 2004, disse a presidente da Fundação Construir Pontes para o Futuro (BBF, na sigla inglesa), Sara Henderson.

Após visitar Aceh na sequência do maremoto de 26 de dezembro de 2004, a norte-americana, aposentada, decidiu criar a BBF, tendo envolvido as comunidades na reconstrução e execução de habitações com o estilo local.

Em 2006, criou a ONG local Yayasan Jembatan Masa Depan (JMD) que, disse, "terminou muitos dos projetos iniciados por grandes ONG internacionais, porque quando surgiam questões de segurança, as ONG partiam", e que continua a apoiar a população em vários projetos no terreno.

"Não houve qualquer coordenação entre as organizações não-governamentais e as agências e países doadores. Todos queriam trabalhar de modo independente a fim de receber o crédito, logo, a duplicação de serviços foi galopante", criticou.

Só um episódio de corrupção foi documentado pelo Banco Mundial, nomeadamente um projeto de agricultura que nunca foi executado e cujos fundos desapareceram, disse, falando, contudo, em "muitos casos" de aproveitamento financeiro, inclusive por parte de funcionários indonésios responsáveis pela alocação dos projetos.

"Eu chamar-lhe-ia corrupção quando uma ONG internacional continua a pagar os seus custos administrativos, enviando 80% dos fundos da reconstrução para o seu próprio país, deixando 20% para os serviços diretos", clarificou.

A fundadora da BBF sublinhou que "não é à toa que muitos em Aceh consideram ONG uma palavra feia".

Vários projetos "foram classificados como moderadamente insatisfatórios pelo Banco Mundial, devido principalmente às propostas que prometiam objetivos que eram impossíveis de alcançar (...) ONG internacionais ficaram muitíssimo ricas com esses fundos", sublinhou.

Sara Henderson reforçou que a reconstrução foi feita sem o envolvimento da sociedade "no processo de planejamento e implementação de projetos", daí que, por exemplo, "toneladas de alimentos" tenham sido enviadas para Aceh, "mas a comida não era necessária".

A reconstrução contou com um total de 5,87 mil milhões de euros, mas a Agência de Reabilitação e Reconstrução de Aceh e Nias convidou os doadores a realizarem os seus projetos, ficando responsável apenas pela organização e pela aplicação dos fundos indonésios, segundo Kuntoro Mangkusubroto, ex-diretor daquela entidade.

A reconstrução de Aceh é encarada como uma história bem-sucedida, dado que hoje a região autónoma, que viveu em conflito durante 29 anos até 2005, está mais moderna e organizada e conta com mais infraestruturas, instalações de saúde, entre outras.

"Não creio que as coisas estejam melhor agora, em 2014, do que eram antes do tsunami. A reconstrução removeu os escombros e atendeu as necessidades de saúde imediatas. Para além da resposta de emergência, não houve um caminho a seguir", comentou Sara Henderson.

A norte-americana recomendou "formação de professores", "educação em matéria de conservação", proteção das florestas, "uma verdadeira promoção" de pequenos negócios, mais transparência na gestão dos recursos, atenção às áreas periféricas, entre outras medidas.

Numa das zonas mais pobres da Indonésia e onde faltam oportunidades, a fundadora da BBF defendeu, por exemplo, a "eliminação ou redução das atividades policiais da Sharia" (lei islâmica), considerando que o salário pago a funcionários para descobrirem "adúlteros" podia ser destinado a um "agrónomo".

Também ouvido pela Lusa, o governador da província de Aceh, Zaini Abdullah, reconheceu que há "ainda muito trabalho a fazer", "especialmente na educação e na economia".

AYN // EL

Lusa/Fim


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