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Cineasta brasileira propõe culturas de resistência aos "resistentes" de Timor-Leste

03 de Junho de 2016, 18:47

Díli, 03 jun (Lusa) - A resistência cultural, pacífica e criativa é uma arma contra as injustiças no planeta, e pode ser motor de movimentos em vários setores, defendeu hoje uma cineasta brasileira que documenta há vários anos esta dimensão da luta civil.

"Nós, civis, podemos usar as armas da nossa cultura, outras formas de fazer resistência. Em todo o mundo as pessoas usam música, fotografia, poesia, dança e outras avenidas, para promover a paz, a justiça, a reconciliação e o movimento contra a guerra", disse Iara Lee à Lusa em Díli.

"Existe uma apatia muito grande. Tanta guerra e violência que as pessoas trocam de canal, ficam mais interessadas nas suas vidas. Tanta conexão mas com as pessoas mais desconectadas e mais anestesiadas", comentou.

A cineasta defende uma resposta, que inspire os jovens em locais onde os olhos da comunidade internacional nem sempre estão, alternativa ao crescente "ativismo de desktop", nas redes sociais, que "na maioria das vezes não se traduz numa diferença no terreno".

Iara Lee está em Timor-Leste para participar no Ciclo de Cinema sobre a Resistência que decorre entre hoje e domingo na Fundação Oriente em Díli.

Natural do Brasil e descendente de coreanos, Iara Lee é ativista, realizadora e coordenadora do Cultures of Resistance Network. Em 2010 realizou o documentário "Cultures of Resistance", em 2012 "The Suffering Grasses" e em 2015 "Life is Waiting", sobre o Saara Ocidental.

Além do projeto "Cultures of Resistance Network" o ciclo conta com um conjunto de curtas-metragens de países como o Ruanda, Brasil, Congo, Birmânia e Paquistão e a exibição de vários documentários, incluindo um brasileiro sobre os Índios Xingu, um português sobre o Tarrafal e um sobre Timor-Leste.

"Acho muito especial pode passar o filme sobre o Saara Ocidental aqui porque durante muitos anos as pessoas achavam que não havia esperança para Timor-Leste e que seria o Saara a ter autodeterminação. E depois de todos estes anos, a história mostrou o contrário: Timor-Leste independente e o Saara continua à espera", recordou.

Iara Lee, que já visitou 170 países, une o seu trabalho de cineasta a um trabalho mais "proactivo", realizando projetos através da sua Fundação Culturas de Resistência (que se autofinancia com investimentos na bolsa) para tentar ter impacto direto nas populações com quem contacta.

Uma mudança que, explicou, começou a sentir necessidade de fazer depois de uma visita em 2000 a um campo de refugiados afegãos no Paquistão, quando, acompanhada de um operador de imagem, tentou registar as experiências dos refugiados.

"Eles começaram a atirar-nos pedras e a dizer: todos os dias chegam aqui fotógrafos, jornalistas e nada muda. Expliquei que estava a tentar registar o seu sofrimento e os seus apelos e eles disseram que já chegava. Que queriam mudanças verdadeiras", disse.

"Para alguém que faz este trabalho de documentação percebi que era importante dar mais um passo. E por isso criei a fundação para tentar fazer projetos, de pequena dimensão e tocar nas comunidades em si, de forma ativa", explicou.

Em Timor o primeiro projeto será a atribuição de bolsas de estudo e apoio para que dois alunos que estejam a terminar o secundário em cada um dos 13 municípios timorenses possam estudar em universidades em Díli, numa iniciativa que deve arrancar já no próximo ano letivo.

No seu país, o Brasil, Iara Lee também documentou a cultura de resistência perante uma 'guerra' que dura há muito tempo.

"Não é uma guerra armada, mas se contar o índice de venda de armas, temos um dos índices mais altos de uso por arma comprada, ou seja: quando uma pessoa compra uma arma usa-a mesmo. Incluindo a polícia. E quando se contabilizam os mortos, é equivalente a vitimas de uma guerra armada", disse.

Apesar do muito que já viu, e dos poucos avanços em algumas das situações de injustiça e desigualdade que documentou, Iara Lee garante que "quanto mais velha mais idealista e mais dedicada" e que, por isso, continua a trabalhar para procurar inspirar jovens.

"Trabalhamos em países em conflito e pós-conflito onde há muito para fazer. Fazemos o nosso singelo papel em ecologia, direitos humanos, direitos civis e apoio a mulheres e jovens", explicou.

Sobre os temas que hoje a inspiram Iara Lee destaca o combate "à muita injustiça que continua a haver no mundo", à desigualdade em muitos setores, a proteção ambiental

"Há muito para fazer. E todos podem ajudar. As pessoas dizem que não têm dinheiro. Mas podem dar tempo. Ou podem dar as suas qualificações, as suas experiências, podem ensinar", afirmou.

"Cada um pode ajudar como pode e todos temos obrigação de contribuir. A vida é curta e todos devemos fazer alguma coisa positiva", disse.

ASP // JMR

Lusa/Fim


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