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Jeito comunicativo recordado nas visitas nas décadas de 1980 e 1990 a Macau

12 de Janeiro de 2017, 01:34

Macau, China, 11 jan (Lusa) -- A primeira viagem de Mário Soares a Macau, no verão de 1980, foi uma das "estórias" contadas hoje por amigos radicados no território, com o advogado Neto Valente a recordar a viagem desde a China "num carro de bandeira vermelha".

O governo português tinha caído, e Mário Soares já não era primeiro-ministro, mas o convite para visitar a China manteve-se, e foi nesse contexto que fez a visita, em julho de 1980, um ano depois do estabelecimento das relações diplomáticas entre Lisboa e Pequim, recordou Jorge Neto Valente.

Mário Soares, acompanhado da mulher, Maria Barroso e do embaixador António Coimbra Martins "deram uma volta por várias cidades da China" e foram esperados em Cantão por Neto Valente, que já o conhecia desde os tempos de dirigente estudantil.

Em julho de 1980 "não era como era hoje, que já há muitos estrangeiros na China. Era outra vida, toda a gente andava vestida de azul ou de preto, ou de cinzento escuro, não havia luz praticamente nenhuma em Cantão à noite, a cidade era muito escura, não havia as avenidas que há hoje, e as restrições de segurança para proteger um dirigente amigo estrangeiro eram mais do que muitas", disse.

O advogado, que foi de Macau para a China ao encontro de Soares num "carro privado modesto", seguia atrás do ex-primeiro-ministro, "que ia num daqueles carros de bandeira vermelha, que a China usava para os seus dirigentes" e a que os poucos veículos nas estradas estreitas tinham de dar prioridade.

No percurso "não havia pontes" e "havia cinco braços de rio para atravessar", nuns ferries que "levavam mais tratores do que automóveis", recordou ainda Neto Valente, ao descrever as peripécias da viagem em que Soares teve uma atitude de proximidade para com os locais.

"O Dr. Soares foi na China aquilo que era em Portugal e o que foi sempre toda a vida. No barco havia disciplina, primeiro passavam os militares (...), e quando nós entrámos, o Dr. Soares começou a cumprimentar cada passageiro que ia no barco e que ele via -- 'Olá, como está?'", recordou.

Foi nessa primeira viagem a Macau que José Maneiras conheceu a pessoalmente Mário Soares, uma "referência" desde o tempo de estudante em Portugal.

Nascido em Macau, José Maneiras estudava arquitetura no Porto "aos 20 e tal anos" quando ouviu falar de Mário Soares, que na altura "era um advogado de 30 e poucos" (...) "que não cobrava os seus honorários a ninguém e que trabalhava com afinco para defender os presos políticos".

O contacto de Maneiras com Mário Soares, que descreveu como "humanista", "combatente pela liberdade" e um dos "obreiros do orgulho de ser português" viria a estreitar-se nas visitas seguintes, segundo o arquiteto, orgulhoso por ser um dos poucos macaenses que tem cartão do Partido Socialista.

Tal como Neto Valente, que tinha antes referido o contributo de Soares para o estabelecimento de relações diplomáticas entre Portugal e a China, Maneiras apontou o seu contributo para as negociações da transição do território para a China.

"Cada vez que fez uma intervenção foi para melhor", disse.

José Maneiras recordou ainda uma receção a Soares na qualidade de presidente do Leal Senado (antiga câmara municipal): "Havia aquele ato simbólico da entrega das chaves da cidade, e estava eu com todas as entidades de Macau à porta do Leal Senado quando o Dr. Mário Soares desembarcou da viatura oficial e veio uma salva de palmas do passeio defronte com a população chinesa" .

"Mário Soares cumprimentou rapidamente as pessoas que estavam no protocolo, incluindo eu, e de repente diz assim: 'com licença, tenho de ir ali dizer qualquer coisa àquela gente. Sem falar chinês, todos os chineses acotovelaram-se para o cumprimentar, as crianças (...), foi um problema para os seguranças", acrescentou.

Dessa viagem em que "andou sempre pela cidade a pé", o arquiteto recordou ainda a consulta num adivinho chinês, "um especialista na palma e fisionomia" que encontrou na rua: "Pegou-lhe nas bochechas e disse-lhe que ele ia ter sucesso e boa saúde".

O economista José Sales Marques, que conheceu Soares também como presidente do Leal Senado, também recordou "os banhos de multidão históricos" das suas visitas, como na de 1995, durante a qual foi inaugurado o aeroporto.

"Um dos seus atributos era fazer as pessoas sentirem-se próximas", disse.

Sales Marques, que já não podia repetir a entrega das chaves da cidade, teve de pensar num presente alternativo, e foi aí que convidou o arquiteto Carlos Marreiros a "fazer uma pintura inspirada nos anjinhos do Leal Senado".

"No dia da entrega estava o arquiteto Marreiros a tentar secar a pintura com um secador de cabelo", lembrou entre risos.

Carlos Marreiros, que também marcou presença na sessão de hoje, ajudou a contar a história e recordou a graça de Mário Soares quando recebeu o quadro: "Ainda está fresco', disse ele".

FV // EL

Lusa/fim


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