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Saúde mental não é suficientemente levada a sério em Cabo Verde -- produtora de cinema

15 de Dezembro de 2017, 03:42

Praia, 14 dez (Lusa) - A problemática da saúde mental não é suficientemente levada a sério em Cabo Verde, defendeu hoje a realizadora e produtora cabo-verdiana Samira Vera-Cruz, que estreia hoje, na cidade da Praia, um filme sobre a esquizofrenia e toxicodependência no país.

"Há muitos anos que tenho tido uma certa preocupação com a questão da saúde mental, principalmente em Cabo Verde, porque é uma problemática que tenho vindo a verificar que não levamos suficientemente a sério", defendeu a produtora.

Samira Vera-Cruz falava à agência Lusa no âmbito da estreia do filme "Sukuru" ("Escuro"), uma longa-metragem que aborda a problemática da esquizofrenia e toxicodependência no país.

Segundo a realizadora, o país já vez "algumas coisas" na matéria, mas entendeu que é preciso fazer mais, sobretudo no acompanhamento e educação da sociedade, sublinhando que é uma questão que "vai para lá das entidades".

"Temos tendência em apontar o dedo ao Governo, às câmaras, mas nós próprios devemos fazer um trabalho de análise, pensar o que estamos a fazer", sustentou, mostrando-se preocupada com o abandono por parte das famílias e com o "gozo" às pessoas com problemas mentais.

"Há muitos países onde as pessoas com distúrbios estão bem medicadas e conseguem ter uma vida perfeitamente comum. Isso acontece aqui com algumas pessoas, mas ainda é uma minoria que consegue levar uma vida em condições", apontou.

Samira Vera-Cruz disse à Lusa que foi desta forma que surgiu a ideia para fazer o filme de ficção, mas "que poderia ser real", já que passa na cabeça de uma jovem esquizofrénico e toxicodependente.

"O nosso caminho é feito por nós próprios e elementos externos nos podem empurrar para aqui ou para ali", salientou, dizendo que é esse o caminho de Jiló, o ator principal, interpretado por Jap Pires, um jovem músico e escritor cabo-verdiano, que é agora um "excelente ator".

A longa-metragem, gravada durante dois meses por atores cabo-verdianos e destinada a maiores de 18 anos, é uma produção independente da Parallax Produções, empresa audiovisual de que Samira Vera-Cruz é diretora.

"Não é um filme bonito, tem violência, linguagens menos agradáveis, mas marca e é isso que quero", descreveu, dizendo que não pretende fazer "filmes bonitos ou corretos", mas sim "mostrar a realidade para lá do ecrã e fazer as pessoas pensar no que estão fazendo enquanto sociedade e enquanto indivíduo".

Depois da estreia mundial em outubro num festival lusófono realizado em Bruxelas e da estreia nacional na cidade da Praia, Samira Vera-Cruz, 27 anos, indicou que vai agora tentar levar o filme a festivais em Portugal, Brasil e Moçambique.

Além de Sukuru, a Parallax Produções, criada há um ano, já produziu outros dois filmes, Buska Santo e Hora di Bai, que venceu o concurso de curtas-metragens para jovens cineastas, no âmbito do 25.º aniversário da cooperação dos PALOP e Timor Leste com a União Europeia.

Até 2021, Samira Vera-Cruz disse que já tem ideias para filmes e séries, que irão abordar outros problemas sociais, com destaque para a igualdade de género.

Na conversa com a Lusa, a produtora afirmou taxativamente que não se consegue viver do cinema em Cabo Verde e considerou que ainda não há uma cultura de mecenato no país, pelo que aconselhou os produtores a procurar financiamento lá fora, tal como faz a Parallax.

Entretanto, mostrou-se entusiasmada com um fundo dedicado ao cinema e audiovisual que o Ministério da Cultura e Indústrias Criativas vai lançar no próximo ano, e que será gerido pela Associação Cabo-verdiana de Cinema, dizendo que será uma ajuda para jovens realizadores.

RYPE // EL

Lusa/fim


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