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A primeira dos "Anjos de Charlie" chegou a Jacarta há 20 anos para apoiar o preso Xanana Gusmão

12 de Fevereiro de 2019, 23:02

 

Díli, 12 fev (Lusa) -- Paula Pinto, a primeira de três mulheres que em 1999 montou o gabinete de apoio ao preso mais famoso da Indonésia, Xanana Gusmão, chegou há exatamente 20 anos a Jacarta, sem saber ao que ia e o que iria encontrar.

"Não sabia quanto tempo, não sabia em que circunstâncias. E fui sozinha", contou hoje à Lusa, numa entrevista sobre esse período marcante da sua vida pessoal e do país a que hoje chama casa.

Chegou sozinha, começou a trabalhar num complexo processo com apoio limitado, em situação adversa, no ano do tudo ou nada para Timor-Leste em que a intensidade foi crescendo ao longo dos meses.

Tradutora, profissional liberal, ativista por Timor-Leste desde 1976, Paula Pinto foi a primeira de um grupo de três mulheres a trabalhar no gabinete de apoio a Xanana Gusmão em Jacarta no ano quente de 1999, nos meses finais da prisão do líder timorense e que antecederam o histórico referendo da independência de 30 de agosto.

Com a australiana Kirsty Sword, que mais tarde viria a casar-se com Xanana Gusmão, e com a francesa Natacha Meden, formariam um trio incansável que entre alguns jornalistas ficou conhecido como "Os Anjos de Charlie", epíteto que ainda hoje lhe provoca um sorriso.

"Essa expressão... vivo bem com ela. Éramos veículos de Xanana Gusmão e olhando para trás acho que tivemos sucesso no que fizemos", contou.

Kirsty Sword chegou um mês depois de Paula Pinto e Natacha Meden em Abril. Mais tarde, e durante algum tempo, teriam o apoio do timorense João Câmara -- que esteve preso com Xanana Gusmão -- e de Lúcia Lobato (que seria mais tarde ministra da Justiça) que fazia a ligação com as Falintil, braço armado da resistência timorense, e rede clandestina.

Paula Pinto aterrou na capital indonésia faz hoje exatamente 20 anos, dois dias depois de Xanana Gusmão sair da cadeia de Cipinang e ser transferido, sob prisão domiciliária, para a casa do diretor da prisão de Salemba.

À sombra dos muros da prisão de Salemba, a casa no número 47 da Percetakan Negara VII - uma rua estreita e de sentido único, ladeada de arbustos e árvores plantadas sobre canteiros pintados a preto e branco -- foi um espaço particularmente concorrido nesse ano.

"Éramos um gabinete de apoio à ação política de Xanana Gusmão. Servíamos como veículo, essencialmente na área internacional, de projeção da mensagem dele a nível internacional, especialmente com os media", afirmou.

"Houve um grande trabalho de 'lobby'. Quando cheguei a Jacarta fui à embaixada americana para tentar falar com o embaixador e não passei do contínuo da porta. E dois meses depois estava a reunir com o embaixador", disse, recordando o "trabalho de formiguinha" a capitalizar nas circunstâncias internacionais mais favoráveis à autodeterminação timorense.

Um trabalho intenso com o apoio de diplomatas amigos, junto de outros com maior desconfiança, num ambiente de hostilidade ou desprezo das autoridades indonésias.

Exceção, recorda, para o então ministro da Justiça, Muladi, um "homem íntegro e sério" que meses depois, quando Xanana Gusmão saiu em liberdade, se foi despedir dele ao aeroporto.

"Xanana pediu a Muladi para que eu tivesse visto de trabalho. O Muladi deferiu o pedido e autorizou. Dois dias depois o Alatas [ministro dos Negócios Estrangeiros] soube que o Muladi tinha autorizado e desautorizou", recorda.

Dias e noites de trabalho intenso, sem parar. Houve uma altura em que, recorda, ela e Kirsty revezavam-se: uma dormia uma noite, a outra a seguinte. "Perdi oito quilos em nove meses. Fervíamos água que servia para o 'pop mie' e o 'cappucino' e café instantâneo", disse, recordando um período em que o motor era a "convicção forte" de todos.

Mesmo nos momentos piores de 1999, quando se começaram a intensificar as ações violentas: momentos de "muito desespero, de choro, especialmente quando vinha informação de gente que conhecíamos pessoalmente", disse.

"Era muito, muito duro. Ouvir o desespero deles aqui e nós a sentirmos que não estávamos a fazer o suficiente", explica.

Os dias iam-se sucedendo a uma velocidade vertiginosa, com catadupa de encontros e reuniões, contactos com jornalistas e, acima de tudo, a recolha alargada de informações sobre tudo o que se passava em Timor-Leste.

Jornalistas, as Nações Unidas, a sociedade civil, a rede clandestina:  tudo era fonte. A informação era compilada, confirmada e depois difundida.

"Não podíamos arriscar que o gabinete não tivesse credibilidade. Por isso tudo o que saía de informação era absolutamente reconfirmado.

Um diálogo com jornalistas, informação a ser canalizada para a diáspora e a rede diplomática da luta, respostas a constantes 'emails' com pedidos de informação ou encontros.

Alguns dias, particularmente difíceis, como em abril aquando do massacre na igreja de Liquiçá, a oeste de Díli: "Ainda não estávamos calejadas para começar a enfrentar este nível de violência. As informações que estávamos a receber eram aterradoras e para mim foi muito difícil lidar com esse dia".

E depois, "indiscutivelmente os dias após os resultados" do referendo, do setembro negro em que a violência alastrou, sem controlo, por todo o território.

"Eu não tenho memória de ter dormido durante uns quatro ou cinco dias. O mais provável é ter dormido, mas não foi essa a memória que ficou. Foi o maior sentimento de impotência que tive em toda a minha vida. Nunca me senti tão impotente, tão incapaz de ajudar o outro e isso foi muito difícil", disse.

Um contraste com o dia feliz do anúncio da vitória da independência ou do dia em que Xanana Gusmão saiu em liberdade.

ASP // JH

Lusa/Fim

 

 


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