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Desemprego urbano sobe na China em novo dilema para as autoridades

17 de Agosto de 2019, 16:17

Pequim, 17 ago 2019 (Lusa) - Quando há dez anos concluiu os estudos, a chinesa Grace Zhang encontrou logo emprego, mas agora está desempregada há meio ano, ilustrando a crescente debilidade da economia da China e um novo dilema para Pequim.

"Antes, era fácil encontrar emprego: enviava o CV ['curriculum vitae'] e recebia logo uma chamada. No espaço de uma semana trocava de empresa", descreve à agência Lusa a chinesa, natural de Shandong, província do nordeste da China.

Aos 32 anos e confiante de que podia encontrar trabalho quando lhe apetecesse, Grace demitiu-se e tirou umas "férias prolongadas" para viajar pela Europa, mas no regresso à China logo compreendeu que "agora já não é bem assim".

"Ando há meses a enviar CV e não obtenho resposta. Estou a começar a sentir pânico", descreve.

Vários chineses na casa dos 30 anos ouvidos pela Lusa contam histórias semelhantes: após anos de 'boom' económico e mobilidade social ascendente, que geraram expectativas renovadas, a economia chinesa passou a crescer ao ritmo mais lento em quase três décadas.

Após a crise financeira mundial de 2008, enquanto as economias desenvolvidas estagnaram, a China construiu a maior rede ferroviária de alta velocidade do mundo, mais de oitenta aeroportos ou dezenas de cidades de raiz, alargando a classe média chinesa em centenas de milhões de pessoas.

Entretanto, Pequim envolveu-se numa inédita guerra comercial com o Presidente norte-americano, Donald Trump, enquanto tem que gerir o excesso de endividamento gerado por um modelo económico assente no investimento público.

Segundo o Gabinete Nacional de Estatísticas chinês, a taxa de desemprego urbano aumentou este mês duas décimas, face a julho, para 5,3%.

Neste contexto, Grace terá ainda de contar com nova concorrência: as universidades chinesas produziram, este ano, um recorde de 8,3 milhões de licenciados, quase o equivalente à população de Portugal, e mais 5,7 milhões do que há dez anos, quando ela entrou para o mercado de trabalho.

Para o Partido Comunista Chinês o novo paradigma ameaça uma das suas principais fontes de legitimidade. O contrato social selado com o povo chinês é claro: o partido mantém uma autoridade indisputada e os privilégios da elite dominante e, em troca, assegura uma melhoria dos padrões de vida e estabilidade social.

Em julho passado, cinco agências do Conselho de Estado chinês alertaram os governos locais de que a criação de emprego "se tornou mais urgente", associando o "emprego para recém-licenciados" com a manutenção da "estabilidade social".

O aviso não é novo, mas, este ano, o Ministério da Segurança Pública anexou pela primeira vez o seu nome.

Grace diz que há "muita gente na mesma situação" e revela estupefação com o paradigma inédito, após décadas de constante progresso económico.

No seu caso, as poupanças que fez na última década estão a evaporar-se, consumidas pelas rendas exorbitantes e crescente custo de vida na capital chinesa, mas conta que há casos piores: "Muita gente endividou-se em excesso e está a ter dificuldades em cumprir".

No total, a dívida corporativa, das famílias e do Governo excede já 300% do Produto Interno Bruto chinês, representando cerca de 15% da dívida mundial, segundo um relatório publicado pelo Institute of International Finance, num número corroborado por vários analistas.

Grace ressalva, no entanto, que, independentemente dos ciclos económicos, os chineses conseguem encontrar soluções.

"Há quem abra lojas no Taobao (a principal plataforma de comércio eletrónico do país), ou se torne motorista para o Didi (o Uber chinês)", conta, "mas ninguém fica de braços cruzados".

JPI // EL

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