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Macau em contrarrelógio para salvar parte do seu património - Arquitetos

20 de Outubro de 2019, 20:12

Macau, China, 19 out 2019 (Lusa) -- Arquitetos de Macau advertem, em entrevista à Lusa, que o território pode vir a testemunhar a destruição de património se não ampliar a tempo as suas áreas de proteção, num momento em que estão em aprovação novas leis urbanas.

Em julho de 2005, o centro histórico do antigo enclave português foi inscrito no Património Mundial da UNESCO. Quase uma década mais tarde, em 2014, o Instituto Cultural propôs-se a classificar e proteger, gradualmente, um conjunto de 100 imóveis.

Para o arquiteto Nuno Soares, que chegou a Macau há 16 anos, trata-se de uma lista "pouco representativa da riqueza arquitetónica" da cidade.

"Não temos uma série de tipologias que são muito importantes na história da arquitetura de Macau. É urgente que esta lista seja alargada", diz, destacando o exemplo dos pátios, que refletem o ambiente denso vivido no território de 32 quilómetros quadrados.

A UNESCO está há quatro anos à espera do plano de salvaguarda e gestão do centro histórico de Macau, prometido desde 2015 e que o Governo promete estar "para breve".

Ao mesmo tempo está previsto o plano diretor, que o Executivo prometeu ter concluído este ano.

Em simultâneo, foi colocado em consulta pública, na semana passada, o regime jurídico da renovação urbana, um projeto com mais de uma década.

Nuno Soares adverte que a atual legislação "não é realista e não permite o desenvolvimento do território", mas sublinha que é preciso "ter muita atenção" antes da entrada em vigor da nova lei.

"Se a transição não for bem gerida, vamos assistir nos próximos anos a uma destruição de muito património", avisa, acrescentando que a população desconhece que muitos edifícios "que são lindíssimos" não estão, na verdade, protegidos.

A paisagem urbana que é visível hoje em Macau deve-se mais "à lei antiga que não permite a demolição destes edifícios" do que à "decisão de preservar esse património", afirma.

O mesmo defende o arquiteto Rui Leão salientando que há "tipologias muito particulares, híbridas e experimentais" que não estão classificadas, considerando urgente "uma redefinição das zonas de proteção" ou atribuir "maior poder às entidades que classificam".

"Esses locais, que são de uma riqueza extraordinária, vivem todos os dias numa constante ameaça ou já foram destruídos", lamenta o presidente do Conselho Internacional dos Arquitetos de Língua Portuguesa (CIALP).

Para se conseguir classificar tudo o que é meritório, é urgente travar este "potencial estado de demolição", diz.

"Se as coisas não estão seguras e sossegadas não são objeto de estudo. E as pessoas ligadas ao estudo do património não podem estar num estado de guerrilha", acrescenta.

A arquiteta Maria José Freitas também espera que o plano de salvaguarda e o plano diretor - numa altura em que estão em construção os novos aterros de Macau - caminhem juntos para uma "visão global e holística" da cidade.

"São dois planos que têm de se cruzar forçosamente, um tem de espiar o outro, o plano diretor não é eficaz se não integrar na sua 'ementa' o plano de salvaguarda e gestão, que é uma parte tão importante da península", sublinha.

"Em Macau, não devemos dissociar as coisas, temos a cidade e temos o rio, é um património que herdámos, tudo isto deve estar englobado no mesmo ponto. Mas continuamos à espera", diz.

Nesta fase de crescimento, Nuno Soares propõe uma "ligação energética entre a zona de expansão e a cidade existente", algo que diz não estar patente no plano para os novos aterros e que acredita poder contribuir para "uma qualidade de vida muito superior".

À semelhança de Maria José Freitas, também Nuno Soares fala na importância de uma "visão integrada e holística", afirmando que o que existe hoje são várias regras "que não têm uma coerência e não estão integradas de uma forma harmoniosa".

Perante a ausência de uma estratégia de desenvolvimento urbano, não se potenciam "sinergias e um desenvolvimento equilibrado e sustentável do tecido urbano".

No início, recorda, "reduziram-se alguns limites legais" para permitir uma expansão rápida da indústria do jogo, à base de um modelo "carta branca" para as operadoras desenvolveram a zona do Cotai (faixa de casinos).

"Mas esse momento já passou e a pressão sobre o território foi aumentando. Temos de salvaguardar o bem comum e o interesse público e isso só se consegue fazer num território como este com um plano", defende.

É uma discussão, diz, para a qual não existem ainda grandes contributos, quer da parte do Governo, quer da parte da sociedade civil.

Uma ideia também defendida por Rui Leão, para quem o "desconhecimento da importância do bem comum é uma lacuna cultural muito grande" no território.

Maria José Freitas acredita que a identidade vai resistir, pelo menos na zona central, que "vai beneficiar dos novos aterros, permitindo que a cidade cresça sem afetar este miolo".

"A sobrevivência vai-se fazendo. Macau é uma cidade que mostra à exaustão o que resulta da negociação e se calhar por causa disso é que ainda não temos plano diretor, é exatamente porque a negociação não acabou e é necessário satisfazer muitos interesses".

Nuno Soares aponta algumas ressalvas: "Ainda temos muitos sinais dessa Macau [de antigamente]. A cultura vai continuando. No entanto, se não se muda nada em termos de política urbana, é mais do mesmo. Mais projetos megalómanos e só vamos continuar a aumentar a assimetria territorial".

Mais pessimista, Rui Leão adverte que "não só há essa possibilidade como é para aí que a gente caminha". "Agora há coisas para fotografar, mas nada diz que daqui a uns anos haja alguma coisa fotografável, se estamos numa de deitar tudo fora e copiar parecido".

Sobre o impacto do turismo, o arquiteto afirma que "é insustentável e que toda a gente que vive em Macau tem experiência disso".

"Devia-se ter o cuidado de não abrir a torneira só para encher quartos de hotel. É uma irresponsabilidade", critica.

Por outro lado, "a sobre ocupação abusiva dos monumentos principais só acontece porque não se mudam as políticas de gestão e de acesso aos monumentos". A solução? É fácil, diz: "a única coisa que é preciso é vontade política".

FST // PJA

Lusa/Fim


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