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Mundo terá de falar mais alto quando "nos forçarem ao silêncio mortal" -- ativista

03 de Julho de 2020, 16:19

Macau, China, 03 jul 2020 (Lusa) -- O ex-vice-presidente do partido pró-democracia Demosisto afirmou à Lusa esperar que a comunidade internacional "possa falar mais alto" no momento em que as vozes em Hong Kong forem "forçadas ao silêncio mortal".

Em entrevista à Lusa, Isaac Cheng, membro da organização política fundada em 2016 pelos líderes estudantis que desempenharam um papel fundamental na chamada "Revolução dos Guarda-Chuvas", em 2014, começou por se escusar falar da decisão de dissolver a organização.

"De acordo com a lei receio não estar em posição de falar pela decisão de dissolver a organização. Francamente, foi uma decisão dolorosa e triste", contou o ativista de apenas 20 anos, dois dias depois do Demosisto ter declarado a "suspensão de operações", poucas horas depois de Pequim anunciar a ratificação da lei da segurança nacional.

"Devido aos riscos e ameaças potenciais da lei, somos forçados a tomar essa decisão", reconheceu o ex-vice-presidente do Demosisto.

Promulgada na terça-feira pelo Presidente chinês, Xi Jinping, após ser adotada pelo Comité Permanente da Assembleia Popular Nacional, a nova lei permite punir quatro tipos de crimes contra a segurança do Estado: atividades subversivas, secessão, terrorismo e conluio com forças estrangeiras que ponham em risco a segurança nacional em Hong Kong, palco de protestos violentos pró-democracia em 2019, que resultaram em mais de nove mil detenções.

Os crimes contra a segurança nacional passam a ser passíveis de prisão perpétua em Hong Kong.

Ainda assim, na quarta-feira, no dia seguinte à promulgação a 01 de julho, dia do 23.º aniversário do regresso da ex-colónia britânica à China, milhares de residentes saíram uma vez mais às ruas, em claro desafio à nova legislação imposta à cidade.

Centenas foram detidos e pelo menos dez podem vir a ser acusados por suspeita de violação da lei de segurança nacional.

"Embora a lei indubitavelmente aumente o custo dos dissidentes em Hong Kong, dezenas de milhares de Hong Kong ainda saíram às ruas para falar no primeiro dia da sua promulgação, apesar da brutalidade policial predominante e do facto de a manifestação ser ilegal, sem autorização da polícia", sublinhou o jovem ativista.

"Tudo isso envia uma mensagem clara ao mundo: Hong Kong nunca se renderá", frisou Isaac Cheng, ex-colega de partido de jovens ativistas proeminentes do território, como Joshua Wong, Agnes Chow e Nathan Law.

Há cerca de um mês, numa altura em que a lei de segurança nacional ainda não tinha saído do papel, em declarações à Lusa, Agnes Chow adivinhava a destruição completa da fórmula 'um país, dois sistemas' e a privação de todas as "liberdades e direitos".

Agnes Chow referia-se assim ao acordo, assinado quando Hong Kong foi devolvido pelo Reino Unido à China em 1997, que garantia ao território 50 anos de autonomia e liberdades desconhecidas no resto do país.

Já Joshua Wong, de 23 anos, que chegou a ser indicado para o prémio Nobel da Paz em 2018, também em declarações à Lusa, apostava ser "o principal alvo da nova lei".

"A nova lei é a retaliação direta aos esforços internacionais de 'lobby' de Hong Kong no último ano. Provavelmente serei o principal alvo da nova lei", afirmou Joshua Wong, uma das figuras mais mediáticas do movimento pró-democracia em Hong Kong, libertado em junho de 2019, após ter sido preso na sequência das manifestações de 2014 em Hong Kong.

Para já, nada aconteceu a Joshua Wong, mas o mesmo receio fez com que Nathan Law anunciasse, na quarta-feira à noite que tinha abandonado Hong Kong.

"Perante a avaliação de risco, não vou revelar onde estou, nem sobre a minha situação pessoal, neste momento", afirmou Nathan Law, numa mensagem no Facebook, um dia depois de ter participado remotamente numa comissão do Congresso dos Estados Unidos, presidida pela líder da Câmara dos Representantes, Nancy Pelosi.

A maioria da comunidade internacional já reprovou a nova lei de Pequim imposta a Hong Kong, com o congresso dos EUA, por exemplo, a aprovar a imposição de sanções aos responsáveis chineses que apliquem as novas regras de segurança repressivas em Hong Kong.

Contudo, durante a entrevista à Lusa, Isaac Cheng pediu mais: "devido aos profundos efeitos da lei na liberdade e nos direitos humanos da cidade, o mundo agora enfrenta uma necessidade mais convincente de ter uma nova avaliação da situação dos direitos humanos em Hong Kong".

E, por fim, desejou: "ainda esperamos que o mundo possa falar mais alto e defender a democracia com esforços mais concretos e vigorosos".

MIM (JMC) // JMC

Lusa/Fim


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